Segundo a História, podemos agradecer às mulheres pela cerveja

24/09/2018
Imagem retirada de https://www.huffpostbrasil.com/2018/09/21/segundo-a-historia-podemos-agradecer-as-mulheres-pela-cerveja_a_23533988/
Imagem retirada de https://www.huffpostbrasil.com/2018/09/21/segundo-a-historia-podemos-agradecer-as-mulheres-pela-cerveja_a_23533988/

A cerveja tem longos 5 000 anos de história. Hoje, as mulheres são donas de cervejarias, mestres cervejeiras, jornalistas especializadas e, é claro, consumidoras – ajudando a acabar com a imagem da cerveja como uma bebida para homens. Quando a humanidade começou a consumir cerveja, entretanto, a bebida estava intrinsicamente associada às mulheres.

A primeira receita escrita de cerveja conhecida é o Hino a Ninkasi, de cerca de 1800 AC. Ninkasi era a deusa suméria da cerveja, e os sumérios foram um dos primeiros povos a deixar provas concretas do consumo de cerveja. Mas ela é ainda mais antiga: arqueólogos estimam que a primeira bebida fermentada tenha sido produzida cerca de 9 000 anos atrás, e os primeiros sinais da cerveja, em particular, aparecem 4 000 anos depois. Muitos acreditam que a cerveja tenha levado à transição da civilização paleolítica para o neolítica, quando os caçadores-coletores perceberam que teriam de se fixar para poder colher grãos.

Desde o início, a produção de cerveja era tarefa das mulheres. Tanto os sumérios quanto os egípcios adoravam deusas da cerveja e associavam a bebida às mulheres. Além de Ninkasi, os sumérios também tinham Kubaba. Ela é a única mulher na lista dos reis sumérios, e chegou ao poder não por nascimento, mas por seu trabalho como cervejeira. Os egípcios cultuavam a deusa da cerveja Menqet e celebravam Sekhmet, a filha do deus do Sol Ra, cuja sede era acalmada com cerveja.

Quando a cerveja se tornou um produto comercializável, as mulheres seguiram no comando. Patty Hamrick, escritora com mestrado em arqueologia antropológica, é professora de um artigo intitulado A Arqueologia da Cerveja, na Brooklyn Brainery. Ela aponta o Código de Hamurabi, da Mesopotâmia, um dos primeiros conjuntos de leis escritas, como prova da autoridade feminina quando o assunto era cerveja.

"[A língua babilônica] acádia tem gêneros, e todas as leis relacionadas a tavernas – como não cobrar excessivamente pela cerveja – fazem referência às 'donas'", diz Harrick.

O conceito da "esposa cervejeira" surgiu por volta do século 5 DC. As mulheres produziam grandes quantidades de cerveja para suas famílias e costumava haver sobra, então elas colocavam um sinal na porta de casa para indicar que tinham cerveja para vender. Folhas verdes ou em alguns casos serviam como indicação. (Às vezes elas também anunciavam sua cerveja nas esquinas, usando chapéus altos, e tinham gatos em casa para afastar as pestes que comiam seus grãos; há quem diga que a imagem da "esposa cervejeira" deu origem à imagem das bruxas. Algumas delas chegavam a abrir bares improvisados em suas casas.

Harrick afirma que a produção passou a ser controlada por homens quando começaram a surgir as guildas de cervejeiros. A primeira delas foi fundada em Londres, por volta do ano 1200, e elas se tornaram comuns no século 16.

"É quando começamos a ver regras para a produção da cerveja, e o uso do lúpulo se torna predominante, para que a bebida dure mais tempo e você possa produzir em grandes quantidades a fim de enviar para outras cidades e até mesmo outros países", diz Harrick ao HuffPost. "A cerveja estava ganhando grande escala."

Embora o lúpulo e suas propriedades conservantes foram o começo do fim da dominação feminina da produção de cerveja, acredita-se que uma mulher tenha sido a primeira pessoa a escrever sobre a ciência por trás desse ingrediente, diz Jeffrey Pilcher, autor e professor de estudos sobre alimentação da Universidade de Toronto Scarborough. A abadessa beneditina Hildegard de Bingen era cervejeira e herborista e descreveu o uso do lúpulo no século 12.

Quando a cerveja passou a ser um negócio de grandes proporções, com importação e exportação, a produção doméstica caiu. Além das guildas, as autoridades criaram regras para tirar vantagem do comércio. Em Bruges, na Bélgica, a primeira associação de trabalhadores de cervejarias se reuniu em 1447 para exigir seus direitos.

A Revolução Industrial trouxe novos ganhos de eficiência para os métodos de produção e transporte. No começo do século 20, a produção de cerveja – e o consumo – estavam nas mãos dos homens.

"A cerveja passou a ser conhecida como bebida masculina porque era produzida por homens", diz Teri Fahrendorf, mestre cervejeira há três décadas e fundadora da Pink Boots Society, uma organização de mulheres que trabalha na indústria. "O trabalho em equipe que existia antes na [produção de] cerveja desapareceu, e as mulheres passaram a ter uma nova imagem: modestas, virginais, casadas. De repente, a cerveja deixou de ser 'feminina'."

Quando as mulheres ocidentais passaram a entrar em massa no mercado de trabalho, nas décadas de 1960 e 1970, as cervejarias passaram a ser fonte de emprego. É uma luta superar as atitudes dos consumidores e o marketing insensível – de campanhas que objetificam as mulheres à sugestão de que elas precisem de uma cerveja diferente --, mas as mudanças começam a aparecer, especialmente nos últimos anos.

"Há muito mais mulheres no setor hoje, muito mais que quando comecei minha carreira", diz Tonya Cornett, mestre cervejeira e responsável por pesquisa e desenvolvimento na 10 Barrel Brewing, na cidade de Bend, Oregon. "As mulheres definitivamente têm impacto. ... A maioria das mestres cervejeiras com quem converso quer ser conhecida pela qualidade de sua cerveja, não pelo fato de ser mulher."

É difícil encontrar estatísticas, mas um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Stanford indica que 20% das cervejarias abertas em 2014 tinham uma mulher entre os fundadores; somente 2% eram exclusivamente de mulheres. Além disso, somente 4% das cervejarias tinham uma mestre cervejeira.

É um progresso lento mas constante, e não é difícil encontrar boas notícias. Em 2014, a Bélgica ganhou sua primeira mestre cervejeira trapista. Mais e mais americanas estão abrindo suas próprias cervejarias artesanais, e a gama de empregos disponíveis no setor é cada vez maior: de cicerones que dão consultoria para cardápios de bares e restaurantes a cientistas que fazem controle de qualidade ou cuidam de laboratórios dedicados às leveduras. Em termos de consumo, uma pesquisa recente da Brewers Association indicou que 31% dos consumidores de cervejas artesanais são mulheres, um aumento em relação aos 29% registrados três anos atrás, afirma Grace Weitz, mestre em estudos alimentares e diretora de marketing da revista especializada em cervejas Hop Culture.

O crescimento das mulheres na indústria fica evidente na Pink Boots Society. A organização começou como uma lista de todas as mestres cervejeiras que Fahrendorf conheceu ou de quem ela ouviu falar em uma viagem pelos Estados Unidos, em 2007. A primeira versão tinha 60 nomes, e o primeiro encontro da PBS, em 2008, contou com a presença de 16 cervejeiras e seis jornalistas especializadas. Segundo a atual presidente da PBS, Laura Ulrich, e a integrante do conselho Jen Jordan, hoje a entidade conta com 2 090 integrantes, 72 filiais estaduais, 13 internacionais – e, a cada mês, cerca de 160 novas integrantes entram para a PBS.

A Hop Culture comemorou o papel das mulheres no mundo da cerveja com uma celebração de uma semana chamada Beer With(out) Beards (cerveja sem barba), em agosto. Liderado por Weitz, os eventos incluíram discussões sobre a história das mulheres na indústria e na mídia especializada, além de um festival com cervejarias que têm donas e/ou funcionárias.

"Aconteceu por causa de uma experiência que fiz", diz Weitz. "Pedi que as pessoas fechassem os olhos e pensassem na última cerveja que tomaram ... pensar nos aromas, sabores e depois pensar na pessoa que fez aquela cerveja. Elas são altas ou baixas, loiras ou de olhos azuis, são um homem grandão e barbudo ou uma mulher? Nove de cada dez respostas falava em homens."

Weitz e a Hop Culture querem promover essa discussão. Os eventos tiveram impacto, diz Ann Reilly, coordenadora de promoções e eventos da Five Boroughs Brewing Co.

"[O público do festival] foi o mais diverso que já vi em um evento de cervejas em Nova York. Todos os gêneros, históricos, raças e identidades estavam representados", diz ela.

A composição diversa do público é uma marca do progresso das mulheres em um setor que elas ajudaram a estabelecer séculos atrás, bem como dos avanços que ainda são necessários – e da motivação das mulheres para chegar lá.

"As cabeças estão mudando, como em todos os setores", diz Reilly. "Havia uma menina de mais ou menos 1,50 metro, bem pequenininha, mas ela conseguia carregar um saco de grãos como qualquer outro homem. Cerveja é para todo mundo, não importa a sua história. Precisamos nos livrar dos estereótipos."

Algumas mulheres da indústria acham que é menos importante entender o papel das mulheres no mundo da cerveja desde que o foco seja em evoluir as atitudes do presente. Outras, como Weitz, acham que conhecer a história vai nos ajudar a evitar repetir os erros do passado. Ela espera que eventos como o Beer With(out) Beards e organizações como a Pink Boots Society ajudem a gerar conscientização – para que o gênero não seja um assunto no futuro.

Fonte: Huffpost Brasil