Mulheres desafiam a domínio masculino na indústria cervejeira

22/03/2017
Imagem: Betina Humeres / Agência RBS / Agência RBS
Imagem: Betina Humeres / Agência RBS / Agência RBS

Na primeira semana de 2017, uma grande marca de cerveja lançou no mercado brasileiro um rótulo – cor de rosa, é claro – especialmente empacotado para atrair o público feminino. A fórmula, descrita como "delicada e perfumada como você", saiu pela culatra e provocou reações nada simpáticas entre as consumidoras da bebida. Para muitas mulheres, as afirmações ocultas por trás do produto são: 1) a de que as demais cervejas não são destinadas às mulheres; e 2) a de que mulheres gostam de cervejas mais fracas e suaves. Um golpe de marketing tão escandaloso quanto desconectado dos tempos atuais, no momento em que as questões feministas povoam as ruas, a internet e, consequentemente, o mercado consumidor.

Não é a primeira vez que uma grande empresa comete uma gafe dessas proporções ao tentar criar um vínculo comercial explícito com o público feminino, mas a verdade é que – ao contrário do segmento de canetas esferográficas – o universo da cerveja, no Brasil, sempre foi declaradamente dominado por homens. Tanto no consumo quanto na produção: basta notar a diferença dos olhares dirigidos a um homem bebendo sozinho na mesa de um bar e uma mulher na mesma situação. Quem é mulher sabe disso. Em Santa Catarina, terceiro estado brasileiro em produção de cervejas, atrás apenas de São Paulo e Rio Grande do Sul, a proporção de mulheres que trabalham em áreas diretamente relacionadas à bebida ainda é baixa na comparação com os homens.

Não existem dados oficiais sobre a participação feminina neste mercado, mas basta sair em busca de mulheres cervejeiras para notar a discrepância entre os gêneros.

– Infelizmente, não temos como negar que é um universo machista. Além do assédio, existem situações de, por exemplo, alegarem que a mulher não tem capacidade para carregar os barris de cerveja e por isso não poderia trabalhar em uma cervejaria – relata a engenheira química e sommelier de cervejas Fernanda Meybom Machado.

Segundo Fernanda, a publicidade e a indústria têm grande participação neste modelo representativo no qual a mulher, via de regra, é inserida de forma estereotipada e objetificada ou simplesmente não contemplada enquanto consumidora.

Quando a coisa se desloca para trás do balcão, ou das torneiras, o machismo está na ideia, muitas vezes não declarada mas presente, de que as mulheres não têm capacidade para produzir e ensinar sobre cerveja simplesmente por isso: por serem mulheres.

– Isso não é exclusividade do universo cervejeiro, está na sociedade como um todo. A cerveja se destaca porque as propagandas sempre trouxeram a representação de uma mulher com pouca roupa. Nosso trabalho é desvincular isso. Queremos vender o sabor da bebida – afirma Fernanda, que faz parte do coletivo ELA (Empoderar, Libertar e Agir), grupo que atua nacionalmente na promoção da participação e da visibilidade da mulher no meio cervejeiro.

Não é preciso dizer que as justificativas que sustentam a discriminação estão distantes dos fatos reais. Ainda que poucas, as mulheres cervejeiras desenvolvem trabalhos de excelência no setor e são verdadeiras referências em conhecimento técnico, especialização e experiência. Fernanda, por exemplo, tem no currículo os títulos de sommelier pelo Science of Beer Institute e mestre em estilos pelo Siebel Institute of Technology. Atualmente presta consultoria para bares e restaurantes como a recém inaugurada Cervejaria Catarina, ambas em Florianópolis, além de lecionar na Escola Superior de Cerveja e Malte, em Blumenau, primeira instituição brasileira de ensino superior totalmente dedicada à bebida.

De volta às origens
Pouca gente sabe, mas em muitas culturas a história da cerveja começou com as mulheres. Isso porque o preparo da bebida era feito simultaneamente ao do pão, já que ambos os alimentos – sim, em alguns países ainda hoje a cerveja é considerada um alimento – possuem ingredientes em comum. Na Suméria, há mais de 4 mil anos, quase metade da produção de cereais era destinada às casas de cerveja mantidas por mulheres.

Chamadas de Sabtien, elas eram vistas como pessoas dotadas de poderes especiais. Entre os povos vikings, existia uma lei que determinava que apenas mulheres podiam produzir a bebida e deter equipamentos destinados a esse fim. Mas é possível que muito antes disso, na Idade da Pedra, a produção da cerveja fosse tarefa feminina, já que eram as mulheres que lidavam com a coleta de grãos, enquanto os homens caçavam. Foi só no final do século 18 que a produção da cerveja passou ao encargo dos homens, uma vez que deixou de ser um negócio familiar e de subsistência para se tornar uma atividade comercial de larga escala e com alta rentabilidade. Hoje em dia, algumas mulheres estão se reapropriando de panelas e fermentadores para produzir cerveja artesanal de forma caseira. Bruna Dixon é uma delas.

Natural de São Paulo e morando em Florianópolis há seis anos, ela criou a Aloha, cerveja caseira que possui cinco variações de estilo: weiss, pale ale, strong ale, stout e indian pale ale, a IPA. O gosto pela bebida se transformou de vez em paixão quando ela provou uma cerveja artesanal pela primeira vez, em 2014. Trabalhando como garçonete em um restaurante no Sul da Ilha, foi lá que ela experimentou a Hedônica, do cervejeiro Fernando Malheiros, que acabou se tornando seu professor.

– Experimentei e de cara adorei. A artesanal é muito diferente das comerciais, porque é feita apenas com água, malte, lúpulo e fermento. Então eu decidi que queria começar a fazer. Comecei a aprender do zero, a participar de cursos, feiras, eventos e por aí vai – conta Bruna, que planeja transformar o hobby em profissão.

Em pouco mais de dois anos, ela já investiu cerca de R$ 4 mil em equipamentos e acessórios, foi aumentando o tamanho das panelas e, consequentemente, da produção, chegando hoje a uma média de 50 litros por semana. Atualmente, a Aloha ainda não tem autorização para ser comercializada. Para isso, acerveja deve constar no mapa das cervejarias e atender a uma série de exigências normativas. De mudança para Fortaleza, no Ceará, Bruna agora quer oficializar o negócio e transformar a Aloha em produto registrado.

– Sinto que às vezes alguns homens acham que cerveja não é coisa de mulher, que mulher não entende do assunto. Mas eu faço e muita gente prova e gosta. Minha ideia é montar uma coisa legal e conseguir viver da cerveja – planeja.

Paraíso das leveduras
Às margens da SC-401, no Norte da Ilha, atrás de um par de portas de vidro, fica localizado uma espécie de reino tecnológico das leveduras. Ali dentro, toda sorte de equipamentos, recipientes, válvulas e acessórios funcionam de maneira coordenada com um único objetivo: proliferar de maneira controlada esse fungo tão caro às cervejas – um trabalho delicado que exige conhecimentos e instrumentos altamente especializados.

A LevTeck é uma empresa de biotecnologia fundada em 2015 pela pós-doutora em microbiologia Gabriela Müller, que produz diversos tipos de leveduras para cervejarias do Brasil todo. Na receita de uma cerveja, em termos de processo, a levedura é responsável por fermentar o mosto, transformando a mistura propriamente em cerveja. Mas seu papel vai além disso: é a levedura que confere identidade à bebida. De acordo com o tipo usado na receita, pode-se obter uma variedade de estilos e sabores.

Em seu primeiro ano de existência, a empresa, que tem apenas mulheres no quadro de funcionários, já cresceu mais de mil porcento. Citada por 10 em cada 10 pessoas em Santa Catarina quando o assunto é cerveja artesanal, Gabriela mesmo assim revela que sente certa resistência do mercado regional ao produto. A maior parte dos seus cliente é de fora do Estado.

– Ainda é um ambiente bem masculino o da cerveja. Nunca enfrentei diretamente uma situação de não ser contratada por ser mulher, mas a gente sente uma resistência no sentido de que preferem comprar levedura de outras pessoas, de outros lugares, enquanto temos o produto aqui perto fresquinho, e acho que um pouco pode ser por sermos um laboratório de mulheres. Mas também tem um pessoal que se amarra e é nosso cliente – pontua Gabriela, que afirma estar operando em capacidade máxima para dar conta dos pedidos.

Além das leveduras, ela também tem o hábito de produzir cerveja em casa para consumo próprio, especialmente para testar novas ideias e receitas. Além da empresa em Florianópolis, Gabriela é das mais atuantes em feiras, festivais, cursos e eventos cervejeiros, além de ser professora na Escola Superior de Cerveja e Malte. O único momento em que ela não está pensando em cerveja e levedura é quando vai remar, atividade que pratica todos os dias.

Mestre cervejeira
Depois de trabalhar durante uma década no meio corporativo, mais especificamente em um cartório de registro de imóveis, Camila Utech largou um emprego tradicional para fazer o curso de Mestre Cervejeiro da Escola Superior de Cerveja e Malte, em Blumenau. O curso é voltado para quem deseja trabalhar diretamente no setor de produção de cervejarias – a fábrica propriamente dita.

O que para alguns pode parecer uma atitude arriscada, na verdade foi planejado com antecedência: já que precisaria ficar um ano inteiro apenas estudando,em período integral.

– Eu tinha a minha carreira mas não me via encaixada naquele meio de burocracia, escritório, computador o dia todo. Sempre fui muito ativa. Já havia participado de cursos de cervejeiro caseiro e fazia cerveja em casa – relata Camila, que contou com o apoio da família.

– Foi muito legal ver o apoio deles. Não é um profissão muito comum, ainda mais por se tratar de uma mulher entrando em um ramo onde a maioria dos profissionais são homens – comenta.

Com o curso concluído, em fevereiro deste ano ela começou a trabalhar na Sunset Brewery, cervejaria artesanal localizada em Tijucas que começou a produzir em setembro de 2016. Em paralelo, Camila mantém o perfil do Instagram @cervejudas, junto com a colega de curso Debora Lehnen, no qual postam conteúdo relacionado ao universo da cerveja.

– Ali a gente fala um pouco da nossa rotina. Queremos mostrar conteúdo e mostrar que a gente manja mesmo, pra desmistificar. Todo mundo pode fazer cerveja – defende.

Fonte: DC