Cerveja boa se faz em casa

10/09/2018
Imagem retirada de http://www.jb.com.br/cultura/2018/09/4350-cerveja-boa-se-faz-em-casa.html
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A mineira Antuérpia, a carioca Overhop e a paranaense Bodebrown foram as maiores vencedoras do Mbeer Contest Brazil 2018, o concurso de cervejas artesanais do Mondial de la Bière Rio, aberto quarta-feira no Pier Mauá. Das 12 cervejarias premiadas, oito são do Rio de Janeiro. A cervejaria de Juiz de Fora ficou com a medalha de platina, a mais alta da competição, com seu lançamento, Nikita Cherry Hickey, uma Russian Imperial Stout (cerveja escura), com adição de cerejas. Já a Overhop e a Bodebrown conquistaram duas medalhas de ouro, cada. No total, foram distribuídas 14 medalhas no formato de estilo livre em que foram inscritas 376 receitas.

A decisão de antecipar a divulgação das melhores cervejas do festival para o primeiro dia desperta o interesse do público pelos rótulos mais bem avaliados. “Dessa forma, as pessoas sabem desde o início a lista dos rótulos vencedores e podem se programar para degustá-los”, justifica Luana Cloper, diretora do evento.

Sem estilos pré-definidos, os juízes fizeram provas às cegas, sem qualquer informação sobre as criações. “Fomos positivamente surpreendidos com a medalha de platina”, disse Giancarlo Vitale, sócio e mestre cervejeiro da Antuérpia. Ele conta que a Nikita Cherry nasceu de uma conversa com o chef paulista Ronaldo Rossi. “Sempre tivemos o interesse de fazer uma Russian Imperial Stout diferenciada, com uma pegada de sobremesa, de cerveja de final. E então decidimos elaborar uma base da stout com cacau e lactose e um terceiro sabor. Assim, surgiram as variantes com baunilha, cereja e avelã”, revela.

Com 12% de teor alcoólico, a Nikita Cherry é uma cerveja de grande potência. Sua base de maltes escuros traz sabores e aromas de chocolate e café que são realçados pelo cacau. A lactose contribui com o corpo. A cereja ficou bem marcante, mas não enjoativa.

Mas nem só pelas cervejas escuras e alcoólicas o Mondial chama a atenção. As Catharinas Sours – estilo brasileiro com adição de frutas, recentemente reconhecido internacionalmente, caracterizadas pelo baixo teor alcoólico e acidez que quase remete a espumantes – vem despertando enorme interesse do público na feira. Com uma delas, a Overhop recebeu uma de suas medalhas de ouro. A Gravioh-La-La é uma receita colaborativa feita com a canadense Avant-Garde, marca multipremiada na edição Do Mondial em Québec. “Eles ficaram empolgados com a ideia de fazer uma Catharina Sour conosco. Alinhamos a receita e eu toquei a produção por aqui. O uso da graviola deu um equilíbrio interessante”, comentou Rodrigo Baruffaldi, sócio e mestre cervejeiro da Overhop e entusiasta do estilo brasileiro.

Com dois anos e meio de existência, a cervejaria carioca emplacou ouro também com a Aeternum, primeira investida da marca num estilo pouco familiar à sua notória influência da escola americana. “Foram vários testes de panela, em casa, antes de levar a receita para produzir na fábrica. Era preciso entender o estilo”, argumenta Baruffaldi. A receita é feita com cacau, baunilha e maturada com amburana.

Participante de todas as edições do Mondial, a já consagrada Bodebrown levou ouro com a versão envelhecida em madeira da sua tradicional Cacau IPA e com a Regina Sour Framboesa, outra cerveja de perfil ácido. Com isso, os paranaenses chegam à marca de 12 medalhas desde que o evento desembarcou no Rio.

Com um público estimado de 50 mil pessoas, a feira também é vista como um cartão de visitas para as novas marcas que podem se mostrar ao mercado. E três novatas conseguiram medalhas no concurso com seus lançamentos: Matisse (Saboya, uma Catharina Sour com uvaia), Thirsty Hawks (Ginga de Laboa, uma ale envelhecida em barris de gim) e Wonderland (Gone Mad, uma American IPA).

“Para nós foi uma alegria inexprimível. Sabíamos do potencial de Saboya e esperávamos que, qualquer hora, ela poderia ganhar um prêmio, mas, quando ele vem, a sensação é de algo maravilhoso e inesperado”, explica Mário Jorge, sócio da Matisse, uma cervejaria de Niterói ainda em seu primeiro ano. O projeto da Matisse, explica, nasceu de uma tradição familiar de passar boa parte dos dias de folga na cozinha, elaborando receitas e preparando pratos para o almoço de domingo. “Em 2013, quando a minha filha e alguns amigos da faculdade resolveram fazer cerveja na minha casa, a ideia foi acolhida com naturalidade e todos colaboravam. De lá para cá, as técnicas foram se aprimorando, os equipamentos melhorando e as receitas ficando melhores, até que, no ano passado, eu e minha mulher resolvemos desenvolver algumas receitas para colocar no mercado”.

Conhecer os diversos estilos de cerveja é uma experiência sensorial inesquecível para quem se propõe a sair do lugar-comum. O Mondial de la Biére é uma excelente oportunidade para viajar por cores, aromas e sabores.

Fonte: Jornal do Brasil