Bares da periferia começam a fabricar suas próprias cervejas

26/07/2019
Imagem retirada de https://vejasp.abril.com.br/cultura-lazer/cerveja-periferia/
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Haja lúpulo! Na contabilidade oficial do governo, há pelo menos 1 000 fábricas de cerveja com a chancela do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O número, divulgado em junho pela Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva) e que reúne marcas tradicionais e artesanais, cresceu vertiginosamente nos últimos dez anos graças ao aparecimento de pequenos produtores no país. São Paulo e Rio Grande do Sul lideram essa revolução microcervejeira na quantidade de fabricantes, inclusive em bairros bem distantes do circuito da badalação nas capitais.

Apesar da expansão relevante, existem ainda duas barreiras básicas para uma maior disseminação de rótulos especiais fora dos grandes centros: sabor e preço. “Trata-se de um processo de educação. As pessoas precisam entender como a cerveja é feita, descobrir a história da bebida, verificar a qualidade da matéria- prima”, diz Estácio Rodrigues, sommelier e sócio do Instituto da Cerveja Brasil. É nesse ponto que tem início o trabalho de algumas microempresas, implantadas em áreas periféricas ou nos arredores da capital, que vêm buscando afinar e ajustar o paladar do cervejeiro com o do público na região onde estão localizadas.

Leandro de Andrade é educador social e morador do Grajaú. Ciente do potencial tóxico do álcool na periferia e da necessidade de criar mecanismos de cultura, arte e lazer para impactar positivamente a sua comunidade, começou a pensar no mercado cervejeiro em 2016. Depois de muito estudo e orientações do mestre-cervejeiro Flávio Garcia, fundou a Graja Beer, em 2018. O primeiro rótulo foi uma lager de 500 mililitros, com 5% de teor alcoólico mais aroma e paladar levemente adocicados. Andrade explica que a baixa complexidade e leveza da cerveja ajudam no propósito da marca: servir de introdução ao mundo das artesanais para os grajauenses. “A ideia que a gente quis passar foi: ‘Beba menos, beba melhor’”, diz.

Inicialmente, por questões financeiras, a marca escolheu a Cervejaria OAK, em Ponta Grossa, no Paraná, para cuidar da produção. Em seguida, foi para Sorocaba, no interior de São Paulo. Apesar de parecerem contra-intuitivas, as parcerias foram essenciais para que a Graja Beer pudesse ser vendida a preços razoáveis por aqui. Isso porque o maquinário e as licenças requeridas pelo Mapa podem ser impeditivos a produtores de pequeno porte. A garrafa é passada ao lojista por 10 reais e comercializada ao consumidor final por até 20 reais. A Graja chegou a estar na geladeira de 33 estabelecimentos na Zonal Sul, entre bares, restaurantes, hamburguerias e mercados. Hoje, tem os rótulos distribuídos em cerca de vinte endereços.

Essa queda na distribuição ocorreu por um motivo nobre. Foi inaugurado no último mês o Graja Beer Pub, nada mais, nada menos que o bar da marca, com espaço para abrigar também a produção. E, além de oferecer a lager, a casa passou a vender chopes pilsen e IPA. Esse último, que vai ganhar versão engarrafada, comprova o amadurecimento da marca. Continua leve, mas o amargor e o corpo de uma india pale ale estão ali. Do outro lado da rua fica a Pantcho’s House Burger, parada obrigatória para os amantes de hambúrguer naquele pedaço. Comandado por Regiane Cruz e Ricardo Vieira, o espaço deu apoio financeiro e culinário para que o Graja Pub se tornasse realidade. “A ideia é que a gente consiga transformar a região num polo gastronômico”, acredita Vieira. Por enquanto, o menu do bar é reduzido, com alguns petiscos e caldos. Os dadinhos de tapioca (R$ 19,90), que viraram um fenômeno desde sua criação em outro extremo da cidade, a Vila Medeiros, na Zona Norte, têm boa textura e são agradáveis ao paladar.

Ali perto, em Taboão da Serra, existe outra produção de pequena escala, feita inteiramente por mulheres. Batizada de Benedita, a cerveja homenageia retirantes nordestinas que ocuparam a periferia de São Paulo e a Rua Benedita Joana Franco, no Jardim Monte Alegre, onde é fabricada. Eneide Gama, cozinheira e coordenadora de projetos sociais, Melissa Miranda, administradora, e Márcia Martins, artista plástica, tocam a empreitada juntas. Elas começaram, assim como outros microcervejeiros, fazendo bebida para consumo próprio. Depois, vieram a curiosidade e o apoio dos amigos. As três decidiram, em 2018, viver da ideia. Atualmente, a operação da Benedita tem capacidade de produzir 500 litros por semana. A american pale ale (APA), levemente frutada e cítrica, virou atração junto com o chope lager, que faz sucesso em eventos. Depois de terem o produto espalhado em quarenta estabelecimentos, as empreendedoras precisaram reduzir a fabricação. “Sofremos calotes e perdemos algumas receitas, mas é tudo aprendizado”, diz Eneide.

A Zona Norte também tem representante no círculo periférico de cervejas. Trata-se da Hidra Beer, do cientista da computação Fabiano Mello. Para iniciar a produção, a princípio por hobby, ele se embebedou com os amigos e procurou dicas até em vídeos no YouTube. Quando notou que tinha jeito para a coisa, investiu primeiro em uma receita de APA. Acreditava que o sabor menos agressivo seria ideal para o público de Pirituba. A Hidra se encaixa na definição de uma cerveja cigana. É feita por uma fábrica parceira e vendida em pelo menos cinco bares, restaurantes e baladas na região. Mello conta que a cervejaria consegue se pagar, mas que ainda não é possível para ele viver da produção. Por isso, divide as atenções entre a marca e um trabalho regular, o que dificulta a prospecção de novos clientes. Por essa razão, Mello também busca impulsionar as vendas on-line. O kit com duas garrafas de 600 mililitros sai por 49,90 reais no site da marca.

Fonte: Veja São Paulo