A cerveja artesanal é mesmo tão melhor? Consumidores e cervejeiros explicam

06/02/2019
Imagem retirada de https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2019/02/a-cerveja-artesanal-e-mesmo-tao-melhor-consumidores-e-cervejeiros-explicam-cjrm5fw0h027k01q9ofotyq9l.html
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O que explica o sucesso da cerveja artesanal? Qualidade: essa é sempre uma característica apontada por quem responde à pergunta. Mas não é só isso. As cervejas mais consumidas em bares e restaurantes — e mais disponíveis nas prateleiras dos supermercados — se resumem, basicamente, a variações de um mesmo sabor. Em sua imensa maioria, são do tipo pilsen — de marcas diferentes, mas com esse mesmo estilo. A bebida artesanal entra para oferecer um cardápio muito maior de opções.

O guia de estilo para cerveja do Beer Judge Certification Program (BJCP), referência mundial na avaliação da bebida, mostra mais de 20 tipos diferentes de cerveja — como stout, IPA e pilsen. Levando-se em consideração também os subtipos, esse número passa de 70 — aí entram a IPA inglesa, a IPA americana, a IPA imperial. Alguns pubs oferecem, à distância de um caneco, mais de 30 estilos para quem quiser provar. Em meio a tantas opções, difícil é escolher por onde começar.

— Na dúvida, a gente indica as cervejas mais leves. Se a pessoa não tem o hábito de beber cervejas diferentes e já sair provando uma IPA, provavelmente vai achar muito amarga e pode até ficar com uma má impressão da cerveja artesanal — sugere Fernando Maldaner, da Edelbrau.

Não por acaso, e comprovando a tese de que a qualidade é mesmo o principal diferencial das artesanais, a maioria das cervejarias tem, no tipo pilsen (o mesmo das maiores marcas da indústria), o maior percentual de vendas.

— É o sabor que o brasileiro conhece, então é justamente o que temos de fazer melhor. A pilsen é o carro-chefe de uma cervejaria artesanal — diz Marx Jaguszewski, responsável pela área comercial da Traum, também de Nova Petrópolis.

Há uma diferença também estética: os apreciadores destacam que se nota pelo visual a distinção entre uma cerveja artesanal e outra mais industrial, mesmo que estejam servidas em copos idênticos. É uma questão de textura, cor e mesmo intensidade do líquido. Preocupação semelhante também pode ser percebida nos rótulos: nas bebidas artesanais, eles são mais coloridos, com temáticas variadas e nomes, não raro, pomposos.

Ainda que muitos dos novos adeptos das cervejas artesanais fiquem naquela "faixa inicial" das mais leves — além da pilsen, há a weiss e a witbier, ambas feitas à base de trigo —, não são poucos os que decidem arriscar e provar produtos mais amargos, encorpados ou com maior teor alcoólico — caso de IPA, tripel e barleywine, por exemplo.

— As cervejas artesanais são boas, disso não há dúvida. Agora, se a pessoa vai gostar ou não de algo muito diferente da pilsen, depende de cada um — diz Mateus José da Silva, da Farol, em Canela.

A Farol, que, assim como muitas das marcas artesanais, disponibiliza um pub bem próximo dos próprios tanques nos quais a cerveja é fabricada — é possível ver esses tanques diretamente da mesa do bar —, os consumidores encontram seis sabores diferentes da bebida. O cardápio tem variações periódicas, com oferta de cervejas mais leves no verão e mais encorpadas durante o inverno. Trata-se, portanto, de uma produção variável ao longo do ano.

Quem ingressa nesse mundo não costuma voltar atrás.

— Se tu compra um carro com direção hidráulica, não consegue voltar para a mecânica — compara Diego Machado, da Malvadeza.

De fato, entre aqueles que trabalham com cerveja artesanal, é difícil encontrar um produtor que consuma os rótulos mais comerciais. Para eles, não há comparação entre um tipo de produto e outro.

— A gente não consegue fazer algo que não consumiria — resume Anibal Martins, gerente de marketing da Lugano Alimentos e Bebidas, em Gramado, que inclui a cervejaria Rasen.

E quem bebe? Por que bebe?
Os fãs de cerveja artesanal costumam repetir uma espécie de mantra: "beber menos, beber melhor".

Não somente porque consumir o produto na mesma quantidade que os latões ou "litrões" pesaria demais no bolso. A ideia é que provar a bebida é uma experiência, algo maior do que simplesmente consumir álcool. Terminar um caneco de cerveja artesanal — com aquela ideia de que tem mais sabor e características diferentes da tradicional — também demora mais.

— A cerveja industrial é muito aguada. Ainda bebo, principalmente por causa do preço, mas esta aqui é muito melhor — comenta o agente de viagens Pedro Henrique Muniz, depois de sair de uma cervejaria em Nova Petrópolis com três garrafas que custaram, no total, mais de R$ 30.
Outro grande diferencial apontado por fabricantes e apreciadores da bebida é a proximidade que as cervejarias artesanais têm com o consumidor final. Em muitos casos, o local onde o produto é feito fica a poucos passos das mesas onde ele é consumido. O retorno é imediato: se a cerveja não está boa, quem a fez vai saber disso muito rapidamente.

Dentro dessa cultura, têm proliferado os chamados brewpubs, bares que produzem a própria cerveja e só a vendem ali mesmo. Um dos principais apelos desse tipo de iniciativa, fora a ideia de fortalecer o comércio local, é a oportunidade de experimentar sabores que não estão disponíveis, ao menos da mesma maneira, em outro lugar. E sabores não faltam.

— A gente vem aqui também com a ideia de experimentar tipos diferentes de cerveja — garante a estudante Mariana Haussen, pouco antes de deixar um brewpub no 4º Distrito, em Porto Alegre.

— Ela pega um sabor, eu pego outro, e vamos experimentando. Outro dia a gente volta e prova outras cervejas — diz a amiga e engenheira de produção Fernanda Zorzo.

Esse apelo da experimentação atrai até quem não é muito chegado à cerveja artesanal. Recém deixando o balcão de um desses bares com dois copos nas mãos, a terapeuta Janaína Xavier conta que não sabe exatamente o que a atrai no produto.

— Dizem que tu tem que te acostumar com o gosto, né? Estou tentando — conta ela.

— Eu também não costumo frequentar muito essas cervejarias, e de vez em quando tomo uma cerveja industrial mesmo. Mas é uma proposta muito boa — resume a também terapeuta Larissa Liberato.

— As pessoas querem entender, conhecer. O cervejeiro normalmente está próximo e pode ajudar. A gente pergunta o que elas gostam de comer, se já provaram alguma cerveja de que não gostaram, tenta entender o porquê. Assim podemos orientar para algum tipo que ela vai gostar — conta Daniel Diefenthäler, cervejeiro da Diefen Bier e um dos sócios da 4Beer, brewpub de Porto Alegre.

Mesmo longe do balcão, esse aspecto educativo — e, por que não?, amigável — das cervejarias artesanais está presente: nas embalagens, é fácil encontrar orientações sobre a taça ideal, a temperatura adequada de consumo e a harmonização com a comida.

E o apreço à cerveja artesanal não para no consumo da bebida. Para o presidente da Associação Gaúcha de Microcervejarias, Diego Machado, a questão é muito maior.

— Quem gosta de uma cervejaria assim começa a demonstrar isso pelo copo, mas continua expressando sua preferência no boné, no caneco, na camiseta. É um estilo de vida.

Fonte: Gaucha ZH